Loucura

Era um quarto pequeno, branco, com uma cama velha com molas, o colchão com alguns pequenos buracos, o lençol muito limpo porém pouco estirado, um travesseiro desconfortável. Não senti vontade de deitar naquela cama, sentei-me no canto da parede de forma que eu pudesse abraçar meus joelhos. Uma lágrima conseguiu descer sobre minha face e na solidão, acompanhada do nada consegui ouvir meu coração e minha alma marcada de tristeza. A porta estava trancada pelo lado de fora, a chave eu não sabia aonde estava, um homem vestido de branco a pouco tempo me colocara ali, diziam que eu tinha uma doença mental; não sei se queriam me levar a loucura ou se queriam provar que quanto mais normais somos é quando mais nos taxam de loucos. E me tracaram em um quarto com uma cama com molas, não seria mais interessante terem me trancado em um daqueles quartos acolchoados? E por que em nenhum momento colocaram uma camisa de força? Diziam que eu tinha uma doença mental, mas me tratavam como uma pessoa normal. Normal? Não, me tracaram em um quarto com cama de mola, como se eu fosse uma prisioneira ou mesmo um doente. No entanto era apenas dor.

 

Tive uma vida um pouco diferente, quando criança consegui me superar nos estudos, mas não tinha interesse nenhum por jogos de meninas, não tive amigos com exceção de uma pomba que me visitava todos os dias, ate que um dia os “coleguinhas” da escola a mataram, não me apaixonei, mas li muito, tanto que comecei a criar um mundo só meu onde tudo o que eu não havia vivido de forma real, eu poderia inventar e criar, gostava de música clássica, e meus pais me diziam que eu precisava agir socialmente. Meus pais. Por que nunca se interessaram em saber como era meu mundo? E por que julgaram mais facil dizer que eu tinha uma doença, se na verdade era apenas dor. Alguns me chamavam de gênio, outros de super dotada, ate descobrirem um nome cientifico para tal tristeza: Esquizofrenia!

O Dr. Albert dizia que a esquizofrenia é uma doença funcional do cérebro que se caracteriza essencialmente por uma fragmentação da estrutura básica dos processos de pensamento, acompanhada pela dificuldade em estabelecer a distinção entre experiências internas e externas. Embora primariamente uma doença que afeta os processos cognitivos, os seus efeitos repercutem-se também no comportamento e nas emoções.

Embora todos sentissem uma tristeza profunda, poucos eram julgados esquizofrenicos. Não consegui entender bem aonde queriam chegar, eu nunca fiz mau a ninguém a não ser a mim mesma. Por duas vezes decidi que o melhor caminhor era a morte, não por uma questão de fuga e sim de encontro. Precisava encontrar na morte o que não tinha achado na vida. Um sentido.

Dormi.
Abriram a porta do quarto, me medicaram, queriam que eu comesse alguma coisa, mas não tinha fome, me deram umas vitaminas, e começaram o processo de todos os dias furarem meu corpo com uma agulha, que com o passar dos dias vinham com mais frequência. Era todos os dias o mesmo processo, me acordavam pela manha por que tinham estipulado que a noite era para dormir e a manhã era para acordar, me levavam para um tal banho de sol, me sentavam para tomar café da manhã , mas como eu não comia me levavam para o quarto e me davam soro com alguma coisa dentro, eu ficava deitada a maior parte do dia, me davam banho por que me achavam incapaz de tomar banho sozinha, tentavam a todo custo que eu me alimentasse como isso não acontecia eu passava o dia todo na cama. E cada dia fui enfraquecendo mais. Diziam que a doença tinha se agravado, mas em nenhum momento me trocaram de quarto. Meus pais vinham sempre me visitar, conversavam comigo, eu os ouvia, suas vozes tristes e distantes, mas de minha boca uma palavra não saia. Tinha outra vez me decido que buscaria a morte. Comecei a ouvir vozes, e senti a loucura presente. A solidão me levara a um ponto determinado onde viver já era muito pouco ou nada.

O quarto tinha uma cama com molas, consegui tirar uma das molas e com a ponta de metal conseguia fazer marcas em meu corpo, o sangue vermelho e a pequena dor que não se comparava com a dor da solidão fazia com que eu me sentisse viva. Logo descobriram meu brinquedinho e diziam que eu tinha tentado suicidio, ora, se eu tivesse mesmo tentado suicidio teria cortado os pulsos, enfiado o arame em meu olho ou em meu coração, não era desta forma que eu gostaria de morrer, eu queria sentir a essência da morte, degusta-la. Ao menos me trocaram de quarto, desta vez para aqueles acolchoados, mas ainda sem a camisa de força, tinha uma camera que e vigiava o tempo todo, mas a verdade é que eu comecei a vigiar aquela camera. Fiquei muito fraca e sentia muito sono, os remedio eram fortes. Foi quando aconteceu, entrei em coma pela primeira vez e não eram como diziam, que se podia ver uma luz no final do túnel e que voce poderia conversar com Deus, era como dormir e não se lembrar de nada. Mas logo depois de ter passado por essa experiência de quase morte, apareceu uma criança, acordei com ela ao meu lado, perguntou como eu estava me sentindo eu não respondi e a menininha não me perguntou mais nada, deveria ter uns 5 anos, passou dias me olhando, calada e eu a olhava, era uma menina linda, não me assustava, não saia de perto de mim, e quando eu tinha minhas crises, segurava em minha mão, ate que tudo passava.

Como obtive uma melhora surpreendente voltaram a me colocar no quarto com a cama de molas, a menina sempre ao meu lado olhando para mim e fui melhorando tanto que resolveram que eu poderia viver fora do hospital, voltar para minha casa, meu quarto, minha cama, meus livros e músicas, meu mundo e a criança me acompanhou. O mais engraçado é que foi nesse momento que eu percebi que estava realmente com uma doença, não porque via a criança, nem por que sentia o efeito dos remedios, mas por que deixara de sentir a tristeza que me acompanhava. Me senti totalmente feliz, só com a essência da morte, conseguimos sentir a felicidade da vida. E ao dormir, morri!
Foi quando me dei conta, enfim tinha achado um sentido.

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