Buraco Negro

Estava ali no meio de uma multidao, todos grandes amigos, que me admirava e eu os admirava. Andavamos desordenadamente, falavamos alto, comiamos com a boca aberta e sempre estavamos pedindo mais uma cerveja. Todos me abraçavam e falavamos muitas besteiras. A festa estava maravilhosa é sempre bom ver os amigos, tomar umas, ser aquilo que a sociedade nao quer que sejamos. Autenticos.

Já estava tarde, tinha que voltar para casa e fui andando meio tonta por conta da quantidade de cervejas que já havia tomado, pensando em como tudo aquilo era interessante, talvez tivessemos que fazer mais vezes. Sao grandes amigos. Soou um pouco extranho isso de grandes amigos. De onde nos conhecemos? Era so aquela noita a nossa amizade? E antes nos momentos em que eu realmente precisei estavam? Acho que havia bebido mais do que o normal, uma noite de sono depois de um banho frio resolveria meu problema e minhas crises deixariam de existir…

Fui para casa, tomei um banho, e nao aguentei nem mais um minuto, dormi. Noite sem sonhos, sem pensamentos, sem sentimentos. Acordei com uma terrivel dor de cabeça, e olhei para o vazio da casa, poderia ligar para esses amigos, certamente eles viriam para a gente fazer outra festinha, mas tinha muito trabalho a fazer, tomei um banho, preparei o cafe da manha sentei-me, olhei ao meu redor, estava sozinha. Poderia ligar para os amigos, nao queria beber, mas gostaria de conversar um pouco, resolvi que melhor nao ligar, estariam também com uma ressaca terrivel. Olhei outra vez para a casa, estava vazia, so tinha lugar para uma pessoa. Eu.

Olhei pela janela para sentir o vento, e o cheiro da terra molhada, estava chovendo um pouco e a sensaçao era otima, um passaro pousou na janela e sem medo nenhum me olhou e cantou uma cançao propria dos passaros. Gracioso passáro, tentei me aproximar dele, ele carinhosamente abaixou a cabeça e deixou que eu o acariciasse. Com muito cuidado eu peguei o passaro em minhas maos e coloquei dentro de casa, peguei umas migalhas de pao e ele comeu. Saciou-se entoou uma linda cançao e voou, saindo pela janela. Olhei outra vez, continuava sozinha.

Durante três semanas nao tive contato de ninguem, pedi ferias do trabalho e nenhum dos amigos da festa me ligaram, eu tambem nao liguei, mas o passáro me visitava, eu lhe dava comida e conversava um pouco sobre mim, meus projetos, minhas ideias, ele parecia ouvir, comia, cantava um canto lindo e voava pela janela. No outro dia pontualmente ele estava ali ao meu lado. A cada dia senti mais necessidade de estar com o pássaro, de ouvir sua cançao mas ele nunca tinha muito tempo, parecia estar interssando na comida, depois de comer cantava como se estivesse agradecendo e voava. Eu olhava para dentro de casa e nao havia mais ninguém estava só.

Resolvi que precisava ficar mais tempo com o passáro, comprei uma gaiola, e o preendi, para que me desse tempo contar tudo o que tinha a dizer, coloquei comida, falei dos meus problemas, o acariciei, ele cantou, nao pode voar, entao me olhou. Meses se passaram e o passáro na gaiola passou a ser minha melhor companhia, percebi que o amava com toda a força de minha alma. Mas ele já nao cantava, me escutava, comia, mas nao cantava. Olhei bem para ele, uma dor no coraçao tomou conta do meu ser, tinha que soltar o passaro, tinha que deixar que ele voasse e cantasse.

Minhas maos tremulas, meus olhos humidos, abriram cuidadosamente a gaiola, para que o amor pudesse voar, cantar e encantar o mundo. O passáro voou, cantou e deu um brilho no céu. Olhei para dentro de casa, estava sozinha. Olhei para fora da janela e vi o passaro. O que poderia me separar dele? A janela? Eu poderia ser livre também, tentar voar.

Abri a janela do setimo andar, senti o vento, ouvi ao longe o canto do passaro, resolvi sair pela janela e voar, voar em busca do meu amor. Senti o vento, ouvi gritos, e ouvi o passáro. Tinha sentido a liberdade, senti-me amada, abraçada, viva. Por segundos entre o setimo andar e o chao. Entre a vida e a morte. Entre a dor e o amor.

Amei de tal forma que tive que prender o passaro, quando notei que o amor era verdadeiro deixei o passaro voar, quando percebi que nao poderia viver sem ele, me entreguei a liberdade, me entreguei ao amor e acordei.

Levantei, olhei ao redor so para saber a diferença entre o sonho e a realidade, minha cabeça doia muito, ressaca, olhei para fora do quarto, onde poderia ver a sala, a cozinha, o banheiro.E no final eu sempre estava só.

Anúncios

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Maria
    set 29, 2010 @ 18:00:54

    é a vontade de mostrar uma cena bonita para alguém, os primeiros dias são a espera de outro personagem para dividir essas cenas, os dias passam e esse segundo personagem não vem, então começam a aparecer mais cenas até que chega uma hora que nimguem aparece pra ver e a simples vontade passa a ser obsessão, queremos aprisionar alguem em uma jaula para que veja o que a gente ve, dificilmente enxergando a obsessão e essa jaula parece uma coisa normal, e quando se percebe o estrago foi feito e nos culpamos ainda mais por não ter conseguido realizar o desejo do inicio, terminando em tragedia ou coisa pior.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: